Novos economistas brasileiros pensam diferente e se descolam da antiga geração
Exame Anpec

Novos economistas brasileiros pensam diferente e se descolam da antiga geração


Matéria de hoje da Folha de São Paulo me motivou a fazer esse post e a passá-lo na frente de outros que intenciono fazer. A matéria fala de economistas de uma nova geração e tenta rastrear para que lado caminha uma nova geração de economistas em suas pesquisas e preocupações teórico e práticas, bem como suas preocupações em saber como a economia afeta o dia a dia dos cidadãos. 

Entre os economistas mais novos essa divisão sempre foi nítida e ela tem explicações históricas e culturais. Do ponto de vista histórico, a alta inflação que existia no Brasil de longa data e suas manifestações mais agudas no final dos anos 80 e começo dos 90 foi um divisor de águas. Quase todos os economistas formados no período inflacionário do Brasil possuem uma formação de macroeconomistas, muitos deles se preocupam com os efeitos, com os sintômas, tais como inflação, câmbio, nível de juros, salários, preços das commodities, níveis de renda, etc, mas não se preocupam tanto com as causas, em saber quais as causas subjacentes em um plano mais profundo do por quê o nível de preços no Brasil é elevado e geralmente distorcido. Veja uma entevista do Delfim Netto (um dos representantes de uma bem antiga geração) no Correio Braziliense para entender do que estou falando. É claro, existem macroeconomistas não só preocupados com efeitos, mas sim com as causas tais como: produtividade, instituições, ambiente de negócios, educação, saúde, relação público x privado, aspectos demográficos, serviços públicos e várias outros temas e variáveis que afetam diretamente a qualidade de vida do país e dos cidadãos, mas também influenciam nas engrenagens do desenvolvimento futuro.


Ainda hoje o Brasil possui muitos macroeconomistas, o que é natural, dado ainda as preocupações do país. Economistas formados antes do início dos anos 90 no Brasil eram quase que exclusivamente macroeconomistas, os microeconomistas eram espécies raras no mercado e nos departamentos de economia das universidades. No entanto os macroeconomistas mais recentes possuem melhor preocupação com fundamentos microeconômicos e existe maior consenso sobre o que se deve ou não fazer para existir um bom desenvolvimento econômico do país. Com a mudança geral do quadro econômico, muitos economistas passaram para outros interesses não tão vinculados ao nosso quadro de "apagar incêndios", que basicamente fazia com que o grosso dos economistas do mercado fossem contratados para ajudar nos cálculos de correções monetárias. O número de economistas voltado para o interesse em microeconomia, economistas preocupados com a decisão dos agentes e com as formas de produção e organização do mercado, aumentou (ainda são minoria, mas são hoje bem mais frequentes). Uma explicação rápida é de que era praticamente impossível ser microeconomista nos tempos inflacionários, dado que nem os preços relativos se conseguia perceber com muita facilidade.

Sobre a influência do lado cultural, existe também uma importância considerável do estudo no exterior. Os alunos que foram para exterior, saiam de um país de um quadro macroeconômico caótico e iam encontrar lá fora outras preocupações (preocupações estas, digamos, bem mais avançadas do que consertar a bagunça macroeconômica que havia por aqui). Lá os alunos se deparavam com evidências do mundo inteiro, entendiam como variáveis chaves para o progresso econômico (tais como educação, tema que estudo) eram relevantes para o longo prazo, e além disso, tinham contato com pesquisa científica de ponta. Quando voltavam a atuar no Brasil esses alunos traziam isso na sua bagagem, e à medida que íamos ganhando um quadro econômico cada vez mais "normal", os regressos de excelentes cursos de pós graduação no exterior iam mudando a cara das preocupações acadêmicas por aqui no Brasil.

No meu caso, eu me identifico mais com essa nova geração de economistas. Apesar de ter escolhido economia por me interessar pela economia que aparece nos jornais e de uma maneira geral pelo desenvolvimento histórico e econômico do país, dentro da economia eu conheci os fundamentos micro e passei a me dedicar cada vez mais ao assunto. Minhas preocupações com o bem estar e desenvolvimento ainda influenciam no tema principal da educação que escolhi como base, mas dentro disso foi possível entender vários componentes econômicos importantes da produção, dos mercados, dos arranjos alocativos e de como agregar eficiência em nossas atividades humanas. No doutorado eu fiz demografia e pude me ater a alguns comportamentos micro subjacentes. Estudei como as pessoas decidem se casar, ter filhos e o que impacta em sua longevidade, onde elas escolhem morar e por quê, componentes importantes na vida de qualquer pessoa. Nisso, minha tese, como tema geral, se dedicou a estudar como o poder público organiza onde os estudantes estudam e como isso pode impactar na vida dos alunos em um montante expressivo. Para isso foi preciso estudar demografia, matemática, econometria, gestão pública, teoria dos jogos, programação e diversos outros assuntos de interesse que precisaram ser combinados interdisciplinarmente.

Existe ainda um grande caminho para melhoras, nossa macroeconomia ainda reflete resquícios desses antigos anos, o país possui problemas econômicos e sociais próprios, mas de parte existe toda uma geração nova de economistas com boa base que precisa ser escutada. Alguns representantes da antiga geração fazem a ponte com esta nova que ingressou no mercado nos últimos 10 anos, e entre os que ingressam agora. A academia brasileira de economia ainda tem de se desprender de velhas amarras (inclusive no que se refere ao ensino). Para mencionar apenas algumas mais evidentes:

  1. Livrar se do sectarismo, opiniões divergentes são naturais em qualquer ciência, mas isso não deve tornar o conhecimento científico encastelado; 
  2. Quebrar a resistência ao inglês, o inglês é o mais perto que temos de uma língua franca mundial, alunos de graduação que resistem ler inglês estão perdendo tempo em relações aos demais e ficando atrás em relação a todo mundo. O mesmo serve para escrever em inglês. Mesmo que o texto seja voltado para interesses acadêmicos e econômicos brasileiros, deve se estimular sua escrita em inglês, pois assim existe maior possibilidade de inserção e leitura por gente interessada no mundo inteiro. Repositórios de sites nacionais de divulgação e pesquisa, devem se preocupar em ter mais material em inglês divulgado, isso é uma das coisas que estrangeiros mais reclamam no Brasil: muitas páginas não possuem opção para o inglês (algumas delas páginas oficiais do governo), como ter contribuição do restante do mundo e querer impactar no que se faz lá fora se não nos fazemos ouvir? Aliás, eu não deveria esta aqui escrevendo em inglês?! :-); 
  3. Transparência, a academia brasileira ainda é muito pouco transparente. Algumas coisas relacionadas a isso envolvem métodos arcaicos que se repetem por pura tradição. Um exemplo: minha tese possui códigos e dados importantes, talvez, tão importantes quanto o texto. E no entanto, a única coisa da tese que os doutorados no Brasil procuram guardar é o seu texto. Pois bem, ter apenas o texto muitas vezes não serve de nada se não puder ser verificado o que o autor falou, então, os centros acadêmicos de pós-graduação no Brasil deveriam ter um repositório dos bancos de dados utilizados e das rotinas. O mesmo vale para as revistas acadêmicas produzidas por aqui, em muitas delas o enfoque é somente no texto quando em alguns trabalhos, mais de 80% do que e relevante está nos dados e nos procedimentos de pesquisa ou computacionais.
  4. Focar mais nas evidências e menos nas pessoas por trás das evidências. Em economia essa é uma tarefa difícil. No meio econômico costuma se dar muito peso a quem disse uma coisa. Imagino que isso ocorre por que em economia não raro se encontram evidências conflitantes e por isso, ter informações sobre o pesquisador que está relatando uma evidência é uma maneira de tentar verificar seu peso, veracidade e rigorosidade. Mas isso pode ser ilusório, primeiro pode conduzir a um caminho "the winner takes it all", ou seja, se dá muita atenção a quem já possui muita, e pode relevar evidências importantes de um pesquisador menos conhecido. Em segundo lugar, isso pode acomodar os medalhões, pois como eles não precisam ser tão rigorosos no que dizem e já são ouvidos, então, não há muito incentivo no esforço deles estarem mais baseados em evidências.
Há ainda um longo caminho para melhorar o ensino e a divulgação da economia na sociedade brasileira. Uma coisa em comum na nova geração é que ela está mais afeita em aplicar economia em temas diversos e isso tem a vantagem de fazer com que o campo do conhecimento econômico esteja mais próximo do dia a dia das pessoas, e não presente apenas no enfadonho noticiário econômico. Por isso é muito interessante dar um ar mais novo e renovado ao debate econômico no Brasil, os blogs fazem esse papel melhor do que os jornais, que se concentram em vacas sagradas de uma antiga economia brasileira. Sem querer desmerecer o papel dos economistas predecessores, o ideal é que as diferentes gerações de economistas aprendam a conviver umas com as outras e que os economistas de cada geração e de diversas formações saibam compartilhar conhecimentos e percepções, e para que isso aconteça, é importante dar um peso equilibrado para esses diferentes representantes do estudo da economia.



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